"COVILHÃ, CIDADE FÁBRICA, CIDADE GRANJA"

Setembro 09 2010

A FÁBRICA CAMPOS MELO

 

Foi a sede de um grupo empresarial que marcou profundamente a história dos lanifícios tanto a nível local e regional, como nacional. Também conhecida por Fábrica Velha, deve esta designação ao facto de se encontrar instalada num dos mais significativos espaços arqueológico-industriais covilhanenses, nas margens da Ribeira da Carpinteira. Trata-se do local onde, em 1677, sob intervenção do Conde da Ericeira, se instalou a Fábrica Nacional de Sarjas e Baetas, que, em 1780, viria a ser ocupada pela Tinturaria de José Henriques de Castro e, posteriormente, dos seus herdeiros. A partir  de 1845, os irmãos José Maria da Silva Campos Mello, Comendador (1808-1866) e Francisco Joaquim da Silva Campos Mello, 1º Visconde da Coriscada (1824-1876), hábeis comerciantes, instalaram a empresa que possuíam, desde 1835, na Rua Direita e um engenho, no Sítio da Califórnia (Engelho dos Mello), fundado em 1844 e explorado sob a designação comercial de “Gregório Nunes Geraldes & Sócios”, num edifício fabril destinado à cardação, fiação, apisoamento, tosa e percha, construído num terreno adquirido a André da Fonseca Corsino, próximo da Fábrica Velha. Em 1851, o mesmo foi pasto das chamas tendo, por este facto, adquirido as instalações da Fábrica Velha, então na posse de D. António Joaquina de Castro, que submeteram a uma reconstrução profunda, na origem do actual complexo.

Em 1864, encontravam-se já criadas as firmas “Mello Geraldes & Cª.”, com uma fábrica completa, na Ribeira da Carpinteira, e onde laboravam 244 trabalhadores e a “Campos Mello & Irmão”, especializada em acabamentos, com 57 trabalhadores. Esta última, em 1889, foi distinguida com a medalha de prata, na Exposição Internacional de Paris. Difundiram a empresa, a nível nacional, tendo criado casas filiais e depósitos em várias cidades, nomeadamente em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Santarém, dinamizadas pelos irmãos Campos Mello, enquanto que a direcção fabril se encontrava a cargo de Gregório Nunes Geraldes.

Em 1891, foi uma das quatro fábricas visitadas na Covilhã, pela comitiva real, a quando da inauguração do caminho-de-ferro. Em 1892, a firma é co-proprietária de um outro engenho, o do Sineirinho. A partir de então, passou também a produzir fardamentos para o exército.

Em 1908, de sociedade familiar, transformou-se em sociedade por quotas, de responsabilidade limitada, sendo transferida a sede da administração da empresa para Lisboa.

Em 1935, no decurso de uma grave crise que atravessou, foi sócia fundadora da “Nova Penteação e Fiação da Covilhã Lda.”, tendo, para realizar a sua quota, transferido para a nova sociedade os direitos sobre vários prédios rústicos e urbanos e uma mina, bem como a cedência de autorização para a instalação e exercício da indústria de penteação, fiação de lãs e fabrico de lanifícios, que lhes fora concedida por despacho ministerial de 1933. Este alvará e os terrenos vieram a ser adquiridos, em 1938, por aquela empresa à firma “Campos Mello & Irmão”.

Na década de 40 do séc. XX, um último esforço de modernização transformou-a numa empresa modelo, a nível nacional, datando deste período a aquisição, no âmbito do Plano Marshall, do mais moderno lavadouro de lãs do país, com capacidade para lavar 2.000 Kg de lã, por hora.

O espírito progressista e filantrópico dos fundadores e continuadores desta firma, evidenciou-se na criação e apoio a diversas instituições de beneficência covilhanenses, como a Biblioteca Heitor Pinto, a Associação da Infância Desvalida, a Misericórdia da Covilhã e, particularmente, a Escola Industrial Campos Melo. Marcaram a história económica, social, política e cultural da cidade e do país, como expoentes da modernidade e do progresso e de que é ainda hoje um digno representante o especialista têxtil e poeta, Ernesto Manuel de Melo e Castro (1932).

Uma plêiade de técnicos e de operários especializados, formada por esta empresa, alimentou a indústria local e nacional dinamizada pela frequente contratação, no estrangeiro, de quadros técnicos altamente qualificados, particularmente oriundos da Suíça, Bélgica e Espanha (Catalunha).

De tão importante empresa subsiste, actualmente, o complexo fabril e o contexto arqueológico onde o mesmo se insere e que através de uma necessária intervenção arqueológica, permitirá pôr a descoberto as estruturas remanescentes da primeira manufactura de estado, fundada na Covilhã, no séc. XVII. De significativa importância patrimonial será a preservação in situ do lavadouro mecânico ali instalado.

 

Elisa Calado Pinheiro in Notícias da Covilhã

publicado por Paulo Jesus às 20:15

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