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"COVILHÃ, CIDADE FÁBRICA, CIDADE GRANJA"

A Fábrica Alçada - Factos e Figuras da História da Covilhã

A FÁBRICA ALÇADA

 

Foram várias as unidades industriais que, a partir de meados do séc. XIX, foram fundadas por membros da família Alçada. Contudo, só uma delas ficou designada de “Fábrica Alçada” apesar de ter sido fundada, em 1840, por Manuel Nunes Mouzaco e se encontrar adjacente a uma outra, fundada por João Mendes Alçada. Trata-se de duas pré-existências, nas margens da ribeira da Carpinteira, que, em 1840, foram adquiridas por estes dois empresários covilhanenses, vindo as mesmas a desenvolver-se paralelamente. Em 1864, eram já duas fábricas completas.

Após o falecimento de João Mendes Alçada, em 1875, na partilha dos bens, a sua empresa coube, entre outros, a Manuel Mendes Alçada, vindo a dar origem à “Manuel Mendes Alçada & Filhos”, fundada em 1902 e que, em 1946, veio a ser adquiridas pela firma “Alçada & Rosa, Lda.”.

Entretanto, a empresa de Manuel Nunes Mouzaco passou a “Mouzaco & Cª.”, tendo diversificado os seus empreendimentos, a partir de 1859, através de uma nova firma, localizada no Prazo, a “Manuel Telles Feio & Manuel Nunes Mouzaco”.

Foi na sequência do casamento de João Mendes Alçada de Paiva com a filha de Manuel Nunes Mouzaco, D. Ritta do Sacramento Mouzaco Alçada, que a “Fábrica Alçada”, designada, a partir de 1878, de “Alçada & Mouzaco”, veio a registar um assinalável desenvolvimento. Em 1888, fez a sua primeira apresentação pública na Exposição da Avenida tendo, no ano seguinte, sido distinguida com a medalha de Prata na Exposição Mundial de Paris. Em 1889, alterou a sua denominação para “Alçada & Filho”, vendo a ser uma das quatro fábricas da Covilhã visitadas pela comitiva real, em 6 de Setembro de 1891, no âmbito da inauguração do troço de caminho-de-ferro. Dispunha já então de 234 trabalhadores.

Em 1904, inaugurou a montagem de uma nova cardação e fiação, que constituiu a primeira instalação completa de estambre do nosso país. No mesmo ano, na Exposição Universal de St. Louis, foi distinguida com a medalha de Ouro, na secção de tecidos de lã.

Em 1908, passou a designar-se “Alçada & Filho, Sucessor, fábrica de penteação de lãs, fios de estambre e cardados e ultimação de fazendas”, tendo-se mantido em actividade até 1964. Todavia, em 1919/20, fundou a “Alçada & Cª”, de que passou a ser sócia, juntamente com a firma “Copeiro & Donas”, o Dr. Aníbal Mouzaco Alçada e o Dr. Manuel Anaquim, vindo a deter, em 1923 50% do capital da mesma. Nesta data, foi efectuado o pedido de licenciamento, para a instalação da fábrica de lanifícios da firma “Alçada & Filho, Sucrs.”.

Em Outubro de 1935, foi instalada uma nova lavadeira para lã penteada, fabricada pela “Fundição do Campo do Rou, Ldaª. A empresa tinha então 320 trabalhadores e produzia, diariamente, 2.500 m de tecido ultimado. Destacava-se ainda pela acção filantrópica que os seus administradores desenvolviam junto do operariado ao serviço da empresa.

Na década de cinquenta, parte das instalações foram arrendadas á firma “António Joaquim Rodrigues”, que aqui laborou, com tecelagem própria, até 1961, seguido pela “Gomes & Cª.”.

Na sequência de um célebre litígio judicial dirimido em 1947, entre os herdeiros de D. Rita do Sacramento Mouzaco Alçada, sobre a posse da propriedade da firma e do estabelecimento fabril, passaram a ser reconhecidos como proprietários da mesma o Dr. Aníbal Mouzaco Alçada e as suas irmãs, D. Maria Carolina Mouzaco Alçada da Costa Arnaut e D. Maria Beatriz Alçada Guimarães.

Em 8 de Dezembro de 1957, a firma “Alçada & Filho, Sucessor” sofreu um violento incêndio, que destruiu a penteação, parte da preparação e grande número de fiações, tendo, em 1959, requerido a reconstrução e ampliação dos edifícios fabris afectados e renovado o equipamento. A empresa foi ainda sócia da “Tinturaria Alçada” e da “Ernesto Cruz & Cª”. Em 1961, tinha a laborar mais de 500 trabalhadores. Em 1964, o Dr. Aníbal Mouzaco Alçada tornou-se o único proprietário da empresa, que passou a designar-se de “Aníbal Mouzaco Alçada” ou Fábrica Alçada”. Conferiu então plenos poderes para a gerir a José Cruz Alves da Silva e ao Dr. José de Albuquerque de Almeida Ribeiro, tendo a mesma vindo a cessar a sua actividade em 1967-1968. A partir de então estabeleceu-se, em parte das instalações, a firma EMPREX.

O complexo fabril que compreendia seis edifícios de produção, uma quinta e três casas de habitação foi alvo de várias intervenções, ao longo do tempo, quer na sequência dos incêndios sofridos quer para ampliação das suas áreas produtivas, vindo a desenvolver-se em catorze corpos, ocupando uma área coberta de 14.650 m2.

 

Elisa Calado Pinheiro in Notícias da Covilhã


A Fábrica Campos Melo - Factos e Figuras da História a Covilhã

A FÁBRICA CAMPOS MELO

 

Foi a sede de um grupo empresarial que marcou profundamente a história dos lanifícios tanto a nível local e regional, como nacional. Também conhecida por Fábrica Velha, deve esta designação ao facto de se encontrar instalada num dos mais significativos espaços arqueológico-industriais covilhanenses, nas margens da Ribeira da Carpinteira. Trata-se do local onde, em 1677, sob intervenção do Conde da Ericeira, se instalou a Fábrica Nacional de Sarjas e Baetas, que, em 1780, viria a ser ocupada pela Tinturaria de José Henriques de Castro e, posteriormente, dos seus herdeiros. A partir  de 1845, os irmãos José Maria da Silva Campos Mello, Comendador (1808-1866) e Francisco Joaquim da Silva Campos Mello, 1º Visconde da Coriscada (1824-1876), hábeis comerciantes, instalaram a empresa que possuíam, desde 1835, na Rua Direita e um engenho, no Sítio da Califórnia (Engelho dos Mello), fundado em 1844 e explorado sob a designação comercial de “Gregório Nunes Geraldes & Sócios”, num edifício fabril destinado à cardação, fiação, apisoamento, tosa e percha, construído num terreno adquirido a André da Fonseca Corsino, próximo da Fábrica Velha. Em 1851, o mesmo foi pasto das chamas tendo, por este facto, adquirido as instalações da Fábrica Velha, então na posse de D. António Joaquina de Castro, que submeteram a uma reconstrução profunda, na origem do actual complexo.

Em 1864, encontravam-se já criadas as firmas “Mello Geraldes & Cª.”, com uma fábrica completa, na Ribeira da Carpinteira, e onde laboravam 244 trabalhadores e a “Campos Mello & Irmão”, especializada em acabamentos, com 57 trabalhadores. Esta última, em 1889, foi distinguida com a medalha de prata, na Exposição Internacional de Paris. Difundiram a empresa, a nível nacional, tendo criado casas filiais e depósitos em várias cidades, nomeadamente em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Santarém, dinamizadas pelos irmãos Campos Mello, enquanto que a direcção fabril se encontrava a cargo de Gregório Nunes Geraldes.

Em 1891, foi uma das quatro fábricas visitadas na Covilhã, pela comitiva real, a quando da inauguração do caminho-de-ferro. Em 1892, a firma é co-proprietária de um outro engenho, o do Sineirinho. A partir de então, passou também a produzir fardamentos para o exército.

Em 1908, de sociedade familiar, transformou-se em sociedade por quotas, de responsabilidade limitada, sendo transferida a sede da administração da empresa para Lisboa.

Em 1935, no decurso de uma grave crise que atravessou, foi sócia fundadora da “Nova Penteação e Fiação da Covilhã Lda.”, tendo, para realizar a sua quota, transferido para a nova sociedade os direitos sobre vários prédios rústicos e urbanos e uma mina, bem como a cedência de autorização para a instalação e exercício da indústria de penteação, fiação de lãs e fabrico de lanifícios, que lhes fora concedida por despacho ministerial de 1933. Este alvará e os terrenos vieram a ser adquiridos, em 1938, por aquela empresa à firma “Campos Mello & Irmão”.

Na década de 40 do séc. XX, um último esforço de modernização transformou-a numa empresa modelo, a nível nacional, datando deste período a aquisição, no âmbito do Plano Marshall, do mais moderno lavadouro de lãs do país, com capacidade para lavar 2.000 Kg de lã, por hora.

O espírito progressista e filantrópico dos fundadores e continuadores desta firma, evidenciou-se na criação e apoio a diversas instituições de beneficência covilhanenses, como a Biblioteca Heitor Pinto, a Associação da Infância Desvalida, a Misericórdia da Covilhã e, particularmente, a Escola Industrial Campos Melo. Marcaram a história económica, social, política e cultural da cidade e do país, como expoentes da modernidade e do progresso e de que é ainda hoje um digno representante o especialista têxtil e poeta, Ernesto Manuel de Melo e Castro (1932).

Uma plêiade de técnicos e de operários especializados, formada por esta empresa, alimentou a indústria local e nacional dinamizada pela frequente contratação, no estrangeiro, de quadros técnicos altamente qualificados, particularmente oriundos da Suíça, Bélgica e Espanha (Catalunha).

De tão importante empresa subsiste, actualmente, o complexo fabril e o contexto arqueológico onde o mesmo se insere e que através de uma necessária intervenção arqueológica, permitirá pôr a descoberto as estruturas remanescentes da primeira manufactura de estado, fundada na Covilhã, no séc. XVII. De significativa importância patrimonial será a preservação in situ do lavadouro mecânico ali instalado.

 

Elisa Calado Pinheiro in Notícias da Covilhã

A Real Fábrica Veiga - Factos e Figuras da História da Covilhã

A REAL FÁBRICA VEIGA

 

Em 1784, José Mendes Veiga (1762-1817), um negociante de lãs e panos, cristão-novo, natural de Belmonte, fundou, nas imediações da Real Fábrica de Panos, junto à Ribeira da Goldra, uma manufactura de tinturaria e acabamento de tecidos, que veio, posteriormente, a ser conhecida como a “Real Fábrica Veiga”.

Em 1803, para além da tinturaria e da casa para tesouras e prensas, já possuía um engenho de cardar e fiar, uma casa de teares e 6 râmolas de sol.

Após a morte do fundador, a empresa passou a ser dirigida pela viúva, D. Rosa Jacinta de Carvalho Veiga, e pelos filhos (Rafael, José e Manuel), primeiro sob a designação de “Viúva Veiga & Filhos” (1817-1822) e, seguidamente, sob a de “José Mandes Veiga & Irmão” (1822-1829).

Defensores do ideário liberal e partidários de D. Pedro, os filhos de José Mendes Veiga, entre 1829 e 1834, tiveram que exilar-se, tendo então a fábrica ficado a ser dirigida pela mãe, sob a designação de “Viúva Veiga” (1829-1834).

No final da guerra civil, de regresso à Covilhã, José Mendes Veiga (filho) (1792-1872), assumiu a direcção da empresa. Logo em 1834, veio a estabelecer, no convento de S. Francisco, na Covilhã, por um curto período de tempo, um novo engenho de cardar e fiar, movido a energia a sangue (bois), que viria a ser pasto das chamas.

Na segunda metade do séc. XIX, apresentava-se já como uma empresa vertical, tendo-se convertido num dos mais importantes complexos empresariais da Covilhã e do país. Em 1864, o empresário veio a ser agraciado com a Comenda da Ordem de Cristo.

O estabelecimento beneficiou, ao longo do tempo, de alguns privilégios reais, nomeadamente a isenção de fiscalização pelos Juízes e Vedores dos Panos, bem como a utilização, em regime de exclusividade, de diversos métodos, técnicas e produtos, que lhe garantiram as mais competitivas vantagens de produção.

Em 1881, empregava 400 trabalhadores, tinha 2 rodas hidráulicas e uma máquina a vapor e consumia mais de 180.000 Kg de lã.

Em finais do séc. XIX, integrava 14 unidades fabris e algumas escolas de fiação e cardação, dispersas por diversas localidades da Beira Interior, localizando-se as mais importantes na Covilhã, em Unhais da Serra, Pêro Mouro e no Fundão. Esta situação contribuiu para ter sido uma das quatro fábricas covilhanenses escolhidas para ser visitadas, em 6 de Setembro de 1891, pelos reis D. Carlos e D. Amélia, aquando da inauguração da linha de caminho de ferra à Covilhã. À data, os monarcas ficaram alojados no palacete do Refúgio, habitado pelo sobrinho e herdeiro de José Mendes Veiga, o Comendador Marcelino José Ventura (1820-1891). Este, após a morte do tio, passara a dirigir o complexo, sob a designação, que se manteve até 1904, de “José Mendes Veiga & Sucrs.”.

Nos finais do séc. XIX, a fábrica passou a ser gerida pelo 1º Conde da Covilhã, Cândido Augusto de Albuquerque Calheiros (1840-1904), afilhado de Marcelino José Ventura, que nela iniciara a sua actividade industrial, tendo-a mantido até à sua morte.

Seguidamente, foram numerosas as firmas ocupantes deste imóvel, até ao seu desmantelamento, em finais do séc. XX. De entre elas destacam-se “António da Cruz Inácio”, “Ramiro e Fazendeiro, Lda.”, “António Maria das Neves & Irmão”, “João Lopes Bola, Sucrs”, “Fiandeira Têxtil da Covilhã, Lda.” e “Alberto Roseta & Irmãos, Lda.”.

Vicissitudes várias afectaram este complexo, de que se destaca, em 1895, o desmoronamento de diversas áreas, na sequência de um forte temporal, que provocou graves inundações na ribeira da Goldra e atingiu várias outras unidades fabris. De igual modo, nas duas primeiras décadas do séc. XX quatro grandes incêndios (em 1904, 1915, 1916 e 1919) atingiram o imóvel. Após as necessárias reconstruções, dois outros incêndios, ocorridos nos anos 60 e 90, conduziram à sua desactivação definitiva.

Em 1997, a Universidade da Beira Interior adquiriu o complexo com o objectivo de o transformar na sede do Museu de Lanifícios e nele instalar o Núcleo Museológico da Industrialização e o Centro de Documentação/Arquivo-Histórico dos Lanifícios. Após as cuidadas obras de remodelação, nele encontra-se preservada uma área arqueológica, bem como uma valiosa colecção de máquinas, equipamentos e documentos que constituem os verdadeiros alicerces da história dos lanifícios da Covilhã, da Beira Interior e do próprio país.

 

Elisa Calado Pinheiro in Notícias da Covilhã

Monumento aos Soldados Mortos na Grande Guerra - Factos e Figuras da História da Covilhã

MONUMENTO AOS SOLDADOS MORTOS NA GRANDE GUERRA

 

 

O monumento aos mortos da Grande Guerra nasce de um movimento juvenil criado na cidade por iniciativa do jornal “O Raio”.

 

Para a sua construção constituiu-se uma primeira comissão integrada por Júlio Carneiro, António Lopes Paes, José Cruz Alves da Silva, Alberto Fazenda, Manuel Gonçalves, José Cavaca Júnior e João Oliveira.

O lançamento da primeira pedra inseriu-se num programa mais vasto de homenagens ao regimento de Infantaria 21, que teve lugar em Março de 1925, do qual sobressaiu a imposição da Cruz de Guerra como resultado do raid de 9 de Março de 1918 levado a cabo pela 1ª companhia capitaneada por Ribeiro de Carvalho e onde se distinguiu heroicamente o alferes Gonzaga. Mas contrariando o entusiasmo de 1925 aquando do lançamento da primeira pedra, na praça de S. Pedro, na Covilhã, as obras não se iniciaram nos tempos seguintes. Na imprensa local surgiam com frequência críticas ao sucedido. Passado um ano os trabalhos eram retomados, a presidência honorária da Comissão foi entregue ao bispo de Beja e para angariar novos donativos foi criada uma comissão de honra constituída por mulheres covilhanenses.

A comissão possuía em Novembro de 1926 3.000 escudos provenientes da campanha levada a cabo pelo jornal “O Raio” e a promessa de 1.000 escudos por parte da Câmara Municipal.

Em Janeiro de 1927, tinha sido já possível contratar os trabalhos do escultor Francisco Santos para a elaboração de uma estátua que constaria no monumento.

 

Durante o ano de 1928, realizaram-se novas iniciativas para angariar fundos. Um sarau cultural no Teatro Covilhanense, onde participou a conhecida recitadora Maria de Lourdes, ou um espectáculo de circo da companhia Ivanov permitiram um novo fôlego para a causa ao atingir verbas num montante de 14.000$00.

Em 15 de Junho de 1930 foi finalmente inaugurado o monumento. O General Carmona descerrava a figura de um soldado que, no largo 5 de Outubro, se encontrava envolvido pela bandeira nacional. Na cerimónia da inauguração estiveram ainda presentes o Ministro da Guerra, o Ministro do Interior, pela direcção da Liga dos Combatentes, Eduardo de Faria e pela Câmara Municipal  o seu presidente Almeida Eusébio e os representantes locais das várias instituições militares e civis.

 

Em 1999 por iniciativa da Liga dos Combatentes, é integrado no monumento um acrescento para homenagear os soldados mortos na guerra colonial. Esta última parte do monumento foi inaugurada em 23 de Outubro de 1999.

 

Carlos Madaleno in Notícias da Covilhã

Igreja do Sagrado Coração de Jesus - Factos e Figuras da História da Covilhã

IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

 

 

Construída sobre o templo medieval de São Tiago, a igreja do Sagrado Coração de Jesus foi a primeira a ser construída na Covilhã depois da sua elevação à categoria de cidade. Também a igreja de São Tiago havia sido um dos primeiros templos a ser erguidos na Covilhã. Desta antiga construção apenas nos chegaram escassas descrições do seu interior, nomeadamente, da existência de três altares onde entre várias imagens se destacavam duas de São Tiago, uma combatendo os mouros, outra envergando os trajes de romeiro. Em 1192, foi doada ao mosteiro de S. Jorge de Coimbra, tendo-lhe sido confirmada, em 19 de Fevereiro de 1221, pelo Papa Honório III através da bula Sacrosanta Romana Ecclesia.

 

Com a extinção da freguesia de São Tiago, a igreja foi perdendo prestígio, apesar da reedificação empreendida, no século XVIII, pelo Prior Manuel dos Santos de Bastos. Em 1875, é adquirida pelos Jesuítas, representados pelo Padre Nicolau Rodrigues. Nos dois anos que se seguem, realizam-se as obras de reedificação. Em 1877, no dia de Natal segundo alguns autores, ou no Sábado de Aleluia segundo outros, é aberta de novo ao culto, mas o seu orago é, agora o Sagrado Coração de Jesus.

A igreja apresentava uma traça austera, a fachada principal era composta por um portal em arco de volta perfeita, encimado por um grande janelão, na empena de linhas curvas foi colocado um nicho com uma imagem.

Com a instituição da república em 1910, e com o novo afastamento dos Jesuítas, o edifício foi utilizado como armazém, cavalariça e celeiro.

Alguns anos depois, foi ali instalado o tribunal da comarca. O corpo da igreja e a capela-mor foram convertidos em sala de audiências. Particularmente interessante foi a transformação da fachada principal, onde se aplicou um estilo neoclássico. No lugar do janelão, abriram-se três portais com frontões triangulares que davam para uma varanda com balaustrada. Fizeram-se duas novas entradas ladeando o antigo portal, o nicho foi tapado e no seu lugar colocou-se um azulejo com uma representação da justiça, a cruz foi substituída pelas armas da república. Em 1942, um incêndio destrói este edifício, deixando-o em ruínas.

Em 1948 o edifício foi de novo adquirido pelos Jesuítas e procedeu-se a uma nova reedificação.

O actual templo, de tipologia modernista, deve o seu traço a Teotónio Pereira. É uma igreja de linhas simples e com escassa decoração, destacando-se a existência de grupos escultóricos, na fachada, da autoria de Joaquim Correia. Estes conjuntos escultóricos representam o orago da igreja, o Sagrado Coração de Jesus, e os dois mártires jesuítas da cidade, o Beato Francisco Álvares e o Padre António de Sousa. Interiormente destaca-se a pintura do orago, inserido na mandorla, invocando as representações medievais da figura de Cristo, da autoria de Martins Barata.

A 10 de Fevereiro de 1952 a nova igreja é aberta ao culto e a partir de 1969 torna-se matriz da paróquia.

 

Carlos Madaleno in Notícias da Covilhã

Correios - Factos e Figuras da História da Covilhã

CORREIOS

 

 

No século XVIII, após o terramoto, o correio chegava à Covilhã todos os sábados durante o Verão e aos domingos durante o Inverno. Estafetas levavam o correio para o Fundão e Castelo Branco às sextas-feiras e para a Guarda às segundas-feiras.

 

Na segunda metade do século XIX os serviços de correio e telégrafo, este último instalado em 1860, são transferidos para um novo edifício que mais tarde serviria de sede provisória à Câmara Municipal e em 1958 era transformado em sede da esquadra da P.S.P.

A transferência dos serviços para o novo edifício ficou-se a dever ao grande fluxo de correio que então se verificava. No final do século XIX, recebiam-se e expediam-se anualmente mais de cem mil bilhetes-postais, mais de 40.000 amostras e cerca de 6.000 encomendas. Igualmente digno de interesse é o número de jornais expedidos que atingia os 40.000 exemplares, mais do que aqueles que eram recebidos.

Já durante o Estado-Novo foi dispensada, por parte da tutela, uma atenção especial às estações de correio, elaborando-se projectos-tipo para a sua construção em detrimento das anteriores cedências e arrendamentos.

 

Na Covilhã é com a reorganização da Praça do Pelourinho, cujo plano se deve ao arquitecto João António de Aguiar, que se projecta o novo edifício dos correios. É então escolhido o projecto-tipo nº 3 elaborado por Adelino Alves Nunes, sendo em 1946 reavaliado e ajustado à realidade local de forma a criar uniformidade na Praça em que se implanta. De linhas sóbrias, sobressai no edifício a torre com janelas de sacada, coruchéu piramidal e pináculos de feição seiscentista, criando a necessária simetria com a torre do Teatro-cine.

 

Em 12 de Março de 1950, o edifício é inaugurado com a presença do Ministro das Comunicações, um representante do ministério das Obras Públicas, o Governador Civil, o Presidente da Câmara, o Vice Presidente da União Nacional e o Comandante Militar da Cidade.

Os correios mantiveram-se sediados neste edifício até que em finais dos anos oitenta se construiu o prédio para o qual haviam de transitar e onde ainda hoje se encontram.

 

Carlos Madaleno in Notícias da Covilhã

O Banco da Covilhã - Factos e Figuras da História da Covilhã

O BANCO DA COVILHÃ

 

Criado em 1874, quatro anos após a elevação da Covilhã a cidade, constituiu a primeira instituição financeira aqui sedeada.

Começou por se instalar no edifício onde actualmente funciona o Lar de S. José, no Largo Eduardo Malta, tendo sido transferido para a Rua 1º de Dezembro, para o imóvel que veio a ser propriedade da Associação de Socorros Mútuos “Mutualista Covilhanense”, que ocupou até à sua liquidação, em 1933.

Foi constituído como sociedade anónima, de responsabilidade limitada, com um capital social de 1.500 contos, que poderia vir a ser elevado até 3.000 contos, dividido em acções, nominativas e ao portador, de 100$000 réis, tendo iniciado a sua actividade com um capital de 750 contos.

Foram seus instaladores os portuenses Manuel Joaquim Vieira Braga e Anastácio Gaspar Ferreira Leão, sócios da firma Vieira & Leão.

O Banco da Covilhã tinha por função realizar um conjunto de operações financeiras comuns às restantes instituições bancárias, nomeadamente a emissão de notas ao portador, o desconto de títulos, quer do Estado quer de estabelecimentos e repartições públicas; as transferências de fundos entre Portugal e outros países; a abertura de contas correntes de nacionais e estrangeiros; os empréstimos por contracto ou subscrição pública, tanto ao Governo como às câmaras municipais, às juntas de distrito e a particulares; a compra e venda de metais e pedras preciosas, de títulos da dívida pública, de acções de bancos e companhias ou outras de cotação oficial; os empréstimos sobre hipoteca, etc. Contudo, distinguia-se dos restantes porquanto previra nos seus estatutos “auxiliar, quanto possível, a indústria de lanifícios, proporcionando-lhe capitais, mediante boas garantias”.

Apesar de projectado para apoiar financeiramente a indústria local, foi constituído maioritariamente por accionistas do Norte do país, se bem que os seus corpos sociais tivessem sido preenchidos, ao longo da sua história, pelos covilhanenses de maior projecção industrial e financeira à excepção dos Campos Melo, que se circunscreveram meramente à posição de accionistas. Pelo contrário, o Comendador Marcelino José Ventura e, posteriormente, o Conde da Covilhã, o Comendador Francisco Nunes Marques de Paiva e o Visconde de Morão, para além de diversos membros da família Mendes Alçada, de que se destaca o Dr. José Mendes Alçada de Paiva, ocuparam posições estratégicas no controle do banco, bem como António Baptista Alves Leitão, para além de muitos outros.

No primeiro quinquénio da sua existência, o Banco da Covilhã dispunha de uma filial no Porto que, por irregularidades, erros detectados e quebra de confiança nos seus dirigentes veio a ser extinta em 1880 e transformada numa simples agência. Nos finais de 1882, o capital do Banco, no montante de 750.000$000 réis, era detido por 293 accionistas, proprietários de 3.852 acções nominativas, por 1.486 acções ao portador e por 2.162 acções detidas pelo próprio banco, localizando-se os accionistas maioritários (com mais de 50 acções) no Porto, em Braga, Fafe e Lisboa, sendo Francisco Cardoso Valente, do Porto, o maior accionista, com um total de 200 acções. Contavam-se ainda no grupo dos seus accionistas diversos bancos, nomeadamente o Comercial e o Mercantil, ambos de Braga, o Mercantil de Viana do Castelo e a Caixa de Crédito Penafidelense, de Penafiel.

Nos inícios dos anos 20 do séc. XX a casa bancária Borges & Irmão, do Porto passou nele a assumir uma posição accionista de relevo.

O Banco da Covilhã veio a encerrar em 1933, por um processo de liquidação, aprovado em Assembleia-geral, em 6 de Junho do mesmo ano, na sequência de um acentuado decréscimo da sua actividade financeira. Fizeram parte da sua comissão liquidatária a casa bancária Banco Borges & Irmão, representada pelo Eng. Francisco Burguete, e Francisco da Silva Ranito.

 

Elisa Calado Pinheiro in Notícias da Covilhã

Garagem de São João - Factos e Figuras da História da Covilhã

GARAGEM DE SÃO JOÃO

 

No local em que se viria a erguer a Garagem de São João existia desde 1875 um teatro denominado de “Teatro Velho”. Na década de 30 do século seguinte, a Câmara Municipal decidiu vender em hasta pública o Teatro Velho. De entre as condições de venda, constava a obrigatoriedade de ali se construir uma nova casa de espectáculos.

No início dos anos quarenta, uma sociedade empresarial, constituída por Francisco da Silva Ranito, Eurico Jotta Roseta e José Ranito Baltazar, decide dotar a Covilhã de um cinema digno da grande “Manchester Lusitana”, adquirindo para tal o Teatro Velho.

O anteprojecto para o Cine-Teatro S. João, assim se chamaria a futura casa de espectáculos, assinado por Luís Filipe Ranito Catalão, deu entrada na Câmara Municipal em 1944. Um ano depois daria entrada o projecto definitivo assinado pelo arquitecto Carlos Ramos, um dos grandes nomes da arquitectura do século XX e um dos introdutores de modernismo em Portugal.

O seu projecto para o Cine-Teatro S. João apresentava diferenças significativas em relação ao anteprojecto. A fachada principal, verdadeiramente interessante, conciliava o que parecia inconciliável, modernismo, cenografia e monumentalidade. No entanto o projecto foi mal aceite pelos técnicos da Câmara, Rafael dos Santos Costa, director da repartição técnica, escreveu: … de modo geral o projecto não nos agradou… forma no conjunto um edifício que choca no meio em que vai ser construído.

Durante o ano de 1947, foi pedida uma licença à Câmara Municipal para iniciar as obras. Entretanto Raul Rodrigues Lima projectou o Teatro-Cine e não haveria na cidade lugar para duas casas de espectáculos com a grandiosidade proposta, o que obrigou os promotores do Cine-Teatro S. João a optarem por construir, em seu lugar, uma garagem. O projecto data de 1949, sendo assinado por Alexandre Steinkitzer Bastos.

A Câmara Municipal, contrariamente aos projectos anteriores, reconheceu a importância desta obra e a 20 de Setembro de 1949, a repartição técnica emitiu o parecer favorável à construção.

Após concluída, a garagem não se mantém durante muito tempo sob a direcção da Empresa Nacional de Espectáculos, passou para a Sociedade de Camionagem da Guarda, depois para a Sacor (de Pedro Ordaz), mas foi com o empresário Alberto de Carvalho que ela viveu os seus “últimos dias de glória”.

Carlos Madaleno in Notícias da Covilhã

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Video elaborado por José Pereira Santos in
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Plano de Melhoramentos de 1883 Da autoria do Engº Antunes Navarro - Factos e Figuras da História da Covilhã

Plano de Melhoramentos de 1883

Da autoria do Engº Antunes Navarro

 

Pedroso dos Santos é um dos primeiros presidentes da Câmara Municipal da Covilhã, senão o primeiro, a apresentar uma preocupação efectiva com o ordenamento urbanístico. Ainda vereador, em 1882, propõe a realização de uma série de melhoramentos na cidade. Esta proposta conduziu a elaboração, pelo engenheiro Antunes Navarro, de um projecto denominado de plano de melhoramentos, apresentado em 24 de Janeiro de 1883.

Este plano visava dotar a cidade de novas vias de comunicação e serviços públicos então considerados indispensáveis numa cidade moderna. Entre as novas artérias destacava-se a Rua Nova, uma via paralela à Rua Direita que iria unir o novo mercado, a construir no local da igreja de São Pedro, e o mercado de gados, a construir junto à igreja de São Francisco, a qual foi orçada em 25.500$00 réis. Outra das vias faria a ligação entre a igreja de São Paulo e o Pelourinho.

O Pelourinho continuaria a ser o coração da cidade, no entanto a praça seria remodelada, passaria a apresentar forma rectangular, o novo edifício dos Paços do Concelho ocuparia o lado Sul, enquanto a Este seria construída a escola normal e a biblioteca.

O campo militar, com uma área de 13.523 m2, localizar-se-ia entre o novo cemitério (actual) e o mercado dos gados, sendo composto de quartel e campo de exercícios.

Na área do lazer estava previsto um passeio público contíguo à estrada real nº 55, em São João de Malta, e um parque a construir no morro onde se ergue a capela de São Martinho.

No domínio do saneamento foi prevista a construção de uma nitreira, no local das Forcas, que receberia todo o tipo de resíduos sólidos e líquidos, convertendo-os em adubos agrícolas e de um reservatório de águas, a construir no largo do Castelo, para abastecimento dos fontanários públicos.

A habitação social não foi esquecida e projectou-se um bairro operário, entre a base do campo militar e o mercado de gados.

A penitenciária ficaria próxima do quartel militar e contaria com 50 celas.

Na memória justificativa do plano era referido que as obras não ultrapassariam os recursos do município nem careciam de vida superior a uma geração para serem levadas a efeito, os custos totais rondariam os 300 contos de réis.

Carta Régia de D. Luis I elevando a vila da Covilhã à categoria de cidade - Factos e Figuras da História da Covilhã

Carta Régia de D. Luis I elevando a

vila da Covilhã à categoria de cidade

 

Por decreto de 20 de Outubro de 1870, foi esta villa de Covilhan, merecidamente, elevada à categoria de cidade; e em 16 de Janeiro de 1871, foi expedida a seguinte carta régia:

 

“Dom Luíz por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves N" Faço saber aos que esta Minha Carta virem que attendendo a que a minha notável Villa de Covilhã, no districto de Castello Branco, é uma das villas mais importantes do Reino pela sua população e riqueza.

Attendendo a que a mesma Villa é uma das Povoações do Reino que mais se tem distinguido pela fecunda iniciativa de seus habitantes na fundação e aperfeiçoamento de muitos e importantes estabelecimentos fabris, cujos productos podem já disputar primasia com os das fábricas estrangeiras mais acreditadas pelo seu desenvolvimento industrial. E desejando dar aos habitantes da referida Villa um solene testemunho do subido apreço em que tenho os seus honrados esforços pelo progresso e aperfeiçoamento da indústria nacional: Hei por bem fazer mercê à dita Villa da Covilhã de a Elevar à cathegoria de Cidade, com a denominação de cidade da Covilhã, e Me apraz que n’esta qualidade goze de todas as prerogativas, liberdades e franquezas que directamente lhe pertencem. Pelo que Mando a todos os tribunaes, Autoridades, Officiaes e mais pessoas a quem esta Minha carta for mostrada que indo assignada por Mim, referendada pelo Ministro e Secretario d’Estado dos Negócios do Reino e sellada com o sello pendente das Armas Reaes, hajam a sobredita Villa por cidade e assim a nomeei sem duvida ou embargo algum. Pagou de direitos de Mercê e addicionaes cento e cincoenta e quatro mil réis, como constou de um conhecimento em forma numero quinhentos evinte e cinco passado em dezaseis do corrente mez pela Recebedoria do sello de verba do districto de Lisboa. E esta carta é passada em dois exemplares um dos quais depois de registado nos livros da Câmara Municipal da Covilhã e no Governo Civil de Castello Branco, servirá para título d’aquella corporação, e o outro será depositado no Real Archivo da Torre do Tombo.

Dada no Paço da Ajuda em dezeseis de Janeiro de mil oitocentos setenta e um.

 

El-Rei (rubrica)

 

António bispo de Viseu”